A galeria Verve inaugurou Ovo Cósmico, primeira exposição individual de Felippe Moraes em sua sede no Edifício Louvre. Na mostra, o artista apresenta  16 obras inéditas, todas elas luminosas. Pela primeira vez, a sala expositiva está escurecida, a fim  de proporcionar ao visitante uma experiência de “sentir-se flutuando no espaço para contemplar  a infinitude e os ciclos dos corpos celestes”, como define o artista. Entre néons, instalações com  espelhos e backlights com fotografias animadas, Felippe Moraes desdobra sua envolvente pesquisa sobre a música das esferas, alquimia e a ordem do cosmos em intrigantes propostas visuais e sensoriais. 

“Tem uns dias que eu acordo
Pensando e querendo saber

De onde vem o nosso impulso
De sondar o espaço (…)

E de pensar que não somos
Os primeiros seres terrestres
Pois nós herdamos uma herança cósmica”

Errare Humanum Est – Jorge Ben Jor, 197

Há perguntas e sussurros que nascem com todos nós. Podem ser escutados ou ignorados. Endereçados ou não, nos acompanham como nossas sombras. Assim o foi com nossos antepassados e assim seguirão sendo no futuro, até que nós mesmos nos tornemos ancestrais. Muitos de nós se permitem imergir nessas águas profundas apenas no instante da morte, da passagem. Na ilusão materialista, privam-se do gozo cósmico de sentirem-se tal qual são: instantes fugidios na eternidade. Ora perene, ora vivendo por um segundo. Ora minúsculos, ora colossais.

OVO CÓSMICO se instaura como experiência estética, simbólica e espiritual. O microcosmo de uma jornada iniciática que propõe, na observação de modelos celestiais, uma mirada em direção ao cosmos interior. Propõe-se como contemplação da infinitude e das questões sem respostas. Com elas aprendemos a flutuar no mar das incertezas como própria condição de seres eternos inseridos em uma sucessão de pequenas e repetitivas vivências finitas.

Há em OVO CÓSMICO o estabelecimento de um ambiente que evoca e invoca símbolos, narrativas e mitologias repetidas reiteradamente por diversas tradições. Nele nos colocamos a fim de fazer as antigas perguntas, mas cuja forma, teor e conteúdo nos esquecemos em uma civilização que se esconde na nitidez insípida do saber instrumentalizado. Não há aqui uma fuga da ciência, mas uma tentativa de nos arremessar novamente no mistério, na suspensão ontológica. Lugar de onde ela mesma emana.

Dessa maneira, OVO CÓSMICO é tanto uma pista de dança celestial, quanto um gabinete alquímico, um modelo astronômico, ao mesmo tempo que um templo astrológico. É tanto exposição quanto caminho iniciático. Uma pletora de sedutores objetos luminosos quanto uma coleção de artefatos mágicos. Tal qual nossas múltiplas vidas na roda do mundo, pode ser arrebatadora quanto esvaziadamente materialista. O que está acima é como que está abaixo, o que está abaixo é como que está acima. Assim, fazem-se os milagres de uma coisa só.

Por meio de obras que vão da ciência ao ocultismo, o artista tensiona o limite entre as  disciplinas  do  conhecimento  para  proporcionar  uma  situação  imersiva  e  contemplativa.  Na  instalação Solaris Discotecum (2023), é criado um modelo do Universo, com um grandioso globo espelhado ao centro, como se fosse o sol, girando lentamente em meio às 12 constelações do zodíaco. Também pela primeira vez, o artista utiliza Argônio na execução de suas obras luminosas, um gás nobre produzido no centro de estrelas da galáxia. A representação gráfica das  constelações  é feita  assim  a  partir  do  próprio  material  que  emana  das  estrelas. No  backlight Evento  Celestial (2020-2023)  o  artista  se  utiliza  de  uma inovadora  técnica  de  impressão,  que  confere movimento às imagens. Nela, é mostrada uma cena de frente ao sol que lança um feixe  de luz em direção ao observador. A ação se repete todas as vezes que se passa diante da obra.  Ali  são  borradas  as fronteiras  entre fotografia  e  cinema,  luz  natural  e  artificial, luminosidade  gráfica e emitida. Em OROBORO (2023), Moraes transforma o palíndromo título da obra em um  poema ilusionista. A palavra se refere ao símbolo alquímico da cobra que morde a própria cauda. O termo é escrito em néon e sua imagem é projetada sobre um espelho, transformando-a num  círculo infinito que permite ler a palavra da esquerda para a direita e da direita para a esquerda,  típico exemplo das curiosas técnicas de encantamento ótico e conceitual proporcionadas pelas  experimentações plásticas do artista.

Felippe Moraes (Rio de Janeiro, 1988) é artista, pesquisador e curador independente desde  2009. Vive e trabalha entre São Paulo e Rio de  Janeiro. Mestre pela University of Northampton no  Reino  Unido.  Sua  pesquisa  está  voltada  para  a  epistemologia  da  razão  e  suas  relações  com  espiritualidade, mitologia e ancestralidade como possibilidades de reencantamento do mundo. Seus  principais projetos individuais são Samba Exaltação (2021), série de néons com citações de canções  brasileiras, que ocorreu como intervenção urbana no Vale do Anhangabaú em São Paulo, depois como  mostra individual no MAC-Niterói e como projeto especial no Museu de Arte do Rio. Em 2021, realizou  Samba da Luz na Biblioteca Mário de Andrade e na Estação da Luz . Em 2019 apresentou Solfejo no  Centro  Cultural  FIESP e  LUZIA, no  Museu  da  Ciência  da  Universidade  de  Coimbra, em  Portugal.  Anteriormente, realizou  as  mostras  individuais  Imensurável (2018)  na  Caixa  Cultural  Fortaleza;  Proporción (2018) no Espacio de Arte Contemporáneo (EAC) em Montevidéu; Cosmografia (2017) e  Ordem (2014), ambas na Baró Galeria, em São Paulo; e Progressão (2016) no MAC-Niterói. É autor das  obras  públicas  Monumento  ao  Horizonte (2016), em  Niterói, e  Monumento  a  Euclides (2017)  na  Romênia. Seu trabalho está presentes em importantes coleções permanentes, como a do Museu de  Arte do Rio (MAR), Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), MAC-RS, MAC-Niterói e CCSP.

A Verve é uma galeria de arte contemporânea fundada em São Paulo. Nascida do entusiasmo  e inspiração que animam o espírito da criação artística, a Verve é abrigo para diferentes plataformas  de  experimentação  da  arte  contemporânea.  A  eloquência  e  sutileza  que  caracterizam  o  nome  do  espaço também estão presentes na cuidadosa seleção de artistas e projetos expositivos. Por entender  que  as  linguagens  artísticas  compreendem  processos  contínuos  e  complementares,  a  galeria  representa novos  talentos e profissionais consagrados que  transitam livremente entre a pintura, o  desenho, fotografia, escultura e a gravura. Desde 2016, é dirigida pelo artista visual Allann Seabra e o arquiteto Ian Duarte, e ocupa um espaço no mezanino do histórico Edifício Louvre, em franco diálogo  com  o  patrimônio  construído  da  cidade  de São  Paulo. Na  diversidade  de  seus espaços expositivos  emergem  possibilidades  de  curadoria  que  vão  além  do  cubo  branco,  estendendo-se  para  a  rua  e  cumprindo a função integradora entre a arte, o público e a cidade.


Serviço: Exposição Ovo Cósmico, de Felippe Moraes com coordenação de Allann Seabra e Ian Duarte, com visitações até 10 de Fevereiro de 2024, na Galeria Verve, Avenida São Luis, 192 Sobreloja 06 [Edifício Louvre] Centro, São Paulo – SP. http://www.vervegaleria.com 

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